• Eng Civil Amadeus Chambarelli

Problemas construtivos #1 - Queda de placas cerâmicas na fachada: considerações e estudo de casos


O presente artigo tem por objetivo compartilhar informações de conformidade dos revestimentos cerâmicos na fachada, obtidos a partir de uma série de Vistorias Técnicas de Engenharia Civil em casos apresentando queda de pastilhas. Tece-se considerações acerca de como realizar um diagnóstico adequado de cada caso, não servindo este texto como base pronta para responder perguntas específicas de todas as situações.


Atualmente, cada vez mais edificações têm apresentado problemas de durabilidade nos panos de revestimento cerâmico nas fachadas. Tendo em visto a quantidade cada vez maior incidentes envolvendo suas quedas, cabe refletir sobre suas causas para que se possa intervir de maneira mais eficiente e reduzir seus riscos.



Muitos condomínios são compostos por uma torre de apartamentos/salas comerciais que, no entorno, há o Pilotis ou uns pavimentos ao qual passam automóveis e transeuntes. Por vezes, no térreo há uma infraestrutura condominial que acolhe crianças - playground, quadras poliesportivas, pátios... A queda de pastilhas cerâmicas, nesse cenário, não é um problema relacionado somente à durabilidade e estética da fachada do prédio, e sim um risco iminente à vida dessa pessoas - razão pela qual esse problema deve ser muito bem avaliado e cuidado pelos representantes legais da edificação (sindicância, administração, membros do conselho, etc.).


Há uma Norma Técnica que dispõe especificamente sobre os requisitos necessários para a execução, fiscalização e recebimento do revestimento de cerâmica em fachadas:


NBR 13755 – Revestimento de paredes externas e fachadas com placas cerâmicas e com utilização de argamassa colante – Procedimento (ABNT, 1996).


De acordo com a ABNT, a execução de um sistema construtivo importante como o revestimento cerâmico em fachada deve ser realizada mediante projeto específico, desenvolvido por profissional devidamente habilitado, contendo detalhes construtivos e especificações técnicas dos materiais e métodos construtivos adequados.


Por conta da diversidade de elementos que compõem o sistema, há variações de comportamento entre os mesmos que, por isso, impõem restrições e levam ao surgimento de esforços internos. Esses esforços tendem a ser tão mais expressivos quanto mais rígidas forem as camadas e, caso atinjam valores excessivos, levam ao surgimento de fissuras e perda de aderência, entre outros problemas. Dentre as especificações que um projeto de revestimento deve conter, de modo a evitar essa situação, cabe elencar:


* Exigências arquitetônicas

* Características e propriedades das placas

* Variação térmica


Além das questões de projeto, é importante avaliar e saber quais foram as condições de execução - tanto nas especificações técnicas dos produtos utilizados quanto na qualidade da mão de obra.



O item 4.3.2 da NBR 13755 dispõe sobre as condições às quais a camada de regularização (reboco/emboço) deve ter para que se possa aplicar a argamassa colante:


* Limpa, isenta de materiais estranhos (pó, óleos, tintas, etc.);

* Sem trincas, não friável e, quando percutida, não deve apresentar som cavo;

* Devidamente alinhada no esquadro e no prumo.


ipsis litteris “o desvio de planeza da superfície sobre a qual serão assentados os revestimentos cerâmicos não deve ser maior que 3mm em relação a uma régua retilínea de 2m de comprimento.


Caso não sejam observadas as boas técnicas em cada camada do revestimento, aumenta-se o risco de que haja interfaces frágeis que poderão sofrer ruptura quando houver acúmulo de tensões geradas. No preparo da argamassa colante, por exemplo, deve-se verificar o traço e os tempo em aberto entre a mistura e a aplicação.

ESTUDO DE CASOS


Apresento casos similares de edificações que tiveram problemas de queda de revestimento cerâmico: Revestimentos cerâmicos com cores diferentes.

Placas cerâmicas na fachada de coloração diferente, sem a execução de juntas de dilatação para conformar movimentos.

A decisão executiva da construtora de compor o revestimento com cerâmicas de tonalidades diferentes deve acompanhar por uma atenção maior aos detalhes de dilatação térmica variante entre os mesmos. Caso não sejam executadas juntas entre os panos de pastilhas com cores mais claras e pastilhas com cores mais escuras, a tendência é que esforços internos entre as peças sejam geradas - podendo romper na interface mais frágil das camadas. Revestimentos com cores mais claras absorvem menos energia (α.lg), dilatando menos que os revestimentos mais escuros.


A absortância térmica é diferente de acordo com a cor do material.

A importância da diferença entre as absortâncias térmicas é ainda mais evidente a partir do momento em que há um aumento da temperatura do ar exterior, dada a uma maior incidência solar nas fachadas, assim como na região da cobertura, que é o pavimento que mais aquece.



Ensolação na fachada

Faltou projeto e planejamento acerca dos detalhes construtivos: localização e dimensionamento dos componentes. A situação ideal é aquela a qual as pastilhas cerâmicas podem dilatar e se mover milimetricamente livremente, com juntas devidamente flexíveis e impermeáveis entre panos de dimensões normativas. Caso contrário, quando se impede o movimento desses revestimentos, há uma tendência maior a um acúmulo de tensões que gera a ruptura de alguma interface, provocando, assim, a queda das placas cerâmicas na fachada.

Croqui das Juntas de Dilatação

Ao término de todos os levantamentos e diagnósticos, resta a definição das condutas técnicas a serem desenvolvidas para reparar os problemas constatados. É possível que problemas graves como a falta da junta comprometam todo o revestimento - o que fazer?


Concluindo...


As informações apresentadas levam em consideração os problemas apresentados. Deve-se buscar evitar que os problemas sejam recorrentes após a manutenção corretiva, e saber planejar bem as manutenções preventivas de modo a gerenciar com maior propriedade a infraestrutura predial (ver aqui o Artigo sobre a diferença entre Manutenção Preventiva e Manutenção Corretiva).


* Projeto executivo: Cabe destacar, inicialmente, a necessidade de projetos executivos devidamente detalhados – como os de paginação do revestimento cerâmico que evite o uso de frações de placas cerâmicas, e da posição e dimensão das juntas–, de planejamento adequado – para minimizar a interferência no cotidiano dos condôminos –, e de materiais de boa qualidade.


* Juntas de dilatação bem executadas: As diferentes juntas necessárias, sejam de movimentação ou dessolidarização ou dilatação, são executadas da mesma forma. Materiais de enchimento e selantes devem ser especificados em projeto arquitetônico da fachada, de acordo conforme item 4.2.5 da NBR 13755:1996.


* Processo executivo (mão de obra): o cuidado entre as partes que compõe o sistema deve ser criterioso de modo a evitar interfaces fracas com maior suscetibilidade de ruptura.

O teste de ausculta deve ser realizado com critérios e, de preferência, por equipe que não seja a mesma que irá executar os serviços - para evitar misturas de interesses na resolução do problema. A fiscalização do mesmo também deve ser feita de modo a ser possível registrar e conferir o mapeamento dos locais mais críticos e passíveis de queda por terceiros.


É importante que haja controle desde a etapa de contratação da serviços de mão de obra, com uma clara e correta descrição dos direitos e deveres de cada parte, assim como uma fiscalização de perto dos serviços e compras de materiais, a fim de garantir que o objeto contratado seja executado em conformidade com as especificações normativas, dentro do prazo, mediante medições e comprovações de qualidade.


Realizadas as correções e as manutenções corretivas, é imprescindível verificar a necessidade de atualização dos memoriais descritivos, projetos e manual de uso e operação, a fim de manter o controle sobre a evolução histórica da edificação.



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